Lembranças do meu Curso Primário

Francisco Daniel Imhof

 

Nos tempos da minha infância, as crianças começavam a ser alfabetizadas quando entravam na primeira série do antigo curso primário, com a idade de sete a oito anos de idade. Fui matriculado no primeiro ano desse curso em 1959 no Grupo Escolar Feliciano Pires, atualmente Escola Estadual Básica Feliciano Pires, no centro de Brusque, quando tinha oito anos. Naquela época, eram raras as escolas nos bairros, as escolas particulares eram frequentadas apenas pelos mais abastados, e a grande maioria dos alunos parava de estudar quando concluía esse curso de quatro anos, pois não havia escola gratuita para a continuidade dos estudos.

 

Ia descalço e a pé para a escola, e havia 2,6km para caminhada de casa até a escola, no trajeto que se iniciava na rua Daniel Imhof (naquela época, era apenas uma estrada estreita, sem saída e sem denominação), passava pelas ruas São Leopoldo, São Pedro, Felipe Schmidt, Barão do Rio Branco e Rodrigues Alves. Para encurtar distância e ganhar tempo, passava por entre os pastos dos tios João e Toni1. Para tanto, tinha que transpor cercas de arame farpado, tomando cuidado para não deixar os fundilhos da calça ou a camisa presos. Entre as saliências e reentrâncias do pasto (que conhecia como "morrinhos"), após as chuvas, havia acúmulo de água estagnada, que chamava de "água parada" ou "água enferrujada", devido à sua aparência. Quando andava-se sobre essa água, o resultado nos dias seguintes era a frieira (inflamação cutânea, acompanhada de rachaduras entre os dedos).

 

As ruas na verdade eram estradas poeirentas, por onde às vezes transitavam carroças, algumas conhecidas: de Antonio Imhof (Toni), Carlos Imhof (Calinho), Francisco Imhof (Franz), Leo Imhof (Lole) e Pedro Pellenz. Nas vias  do meu percurso, apenas as ruas centrais Rodrigues Alves, Rio Branco e parte da Felipe Schmidt eram pavimentadas com paralelepípedos. Esta última era pavimentada apenas até onde se inicia a rua do Centenário. A cada ano, a prefeitura pavimentava em torno de cem metros, e ainda não havia rua asfaltada. Edifícios praticamente não existiam, as casas não eram tão próximas umas das outras, e a população conhecia quem morava em quase todas elas.

 

Numa dessas minhas caminhadas diárias em direção à escola, o cachorro que a minha família possuiu por vários anos e que era um amigo muito fiel, chamado Pire, de abundante pelagem branca, teimou em seguir-me rumo à escola e não obedecia às minhas ordens para retornar. Na rua Felipe Schmidt, em frente à propriedade do Sr. Otto Nietsch, o entregador de leite Beno Decker, morador da rua Anita Garibaldi (conhecida como rua Blumenau), estava pilotando a sua bicicleta com um engradado à frente, cheio de litros. Pire cismou com ele e passou a hostilizá-lo, latindo em tom ameaçador e se aproximando cada vez mais. De repente, quando Beno deu um pontapé para afastá-lo, desequilibrou-se e caiu da bicicleta. O resultado não poderia ter sido pior: todos os litros se quebraram e o leite se esparramou pelo chão. Passei um sufoco, temendo que o zeloso entregador descobrisse que eu era o dono do cachorro e fosse me agredir. Mas ocorre que o benquisto cão, parecendo arrependido pelo mal que causou, saiu cabisbaixo e lentamente voltou para casa, a 1,5km dali, sem dar qualquer sinal de que me conhecia, agindo como inseparável, fiel e autêntico amigo que sempre foi! Para tristeza de todos da minha família, anos depois esse nosso cão amigo desapareceu misteriosamente, deixando muita saudade.

 

O uniforme escolar era constituído de uma calça curta azul marinho e camisa branca. Diferentemente dos dias atuais, o governo não fornecia material escolar nem uniforme; minha mãe comprava sacos de trigo vazio, que vinham com a identificação do Moinho Peônia, de Itajaí, na venda (pequeno armazém) de Arlindo Imhof (atual Empório Imhof), na rua São Pedro, depois utilizava um tacho2, onde os colocava em água fervente para retirar essa marca. Enviava parte desse "tecido" para uma pessoa tingir de azul (destinado à calça), depois remetia tudo para uma costureira confeccionar os uniformes.

 

No início do ano letivo, os pais compravam uma pasta, um penal (estojo para guardar caneta, lápis, borracha, etc.), uma caneta tinteiro (ainda não havia a caneta bic), uma caixa de lápis de cor, lápis, borracha  e um caderno. No segundo ano, usávamos também a caneta tinteiro, abastecida com tinta extraída de um reservatório embutido na mesa. Havia também o mata-borrão, um objeto destinado a absorver o excesso de tinta.

 

A merenda escolar era frugal: pão macinha doce (uma espécie de pão doce macio), café e leite, servidos em canecas de alumínio, após uma espera em longa fila.

 

No primeiro dia de aula, a dedicada professora, Sra. Cândida da Cunha Souza (*21.09.1924), que costumava usar óculos escuros, dirigiu-se ao quadro negro e escreveu as letras do alfabeto, leu cada uma e nos mandou repetir em voz alta; a seguir, desenhou uma espécie de cerca com sarrafos de madeira, e, a cada sarrafo contado, nós repetimos, para aprendermos a contagem. D. Cândida foi minha professora no primeiro, segundo e terceiro anos do curso. No quarto ano, a professora foi a Sra. Maria Odete Müller Espíndola, que residia na av. Otto Renaux, próximo da empresa Intelba, quando aquela via pública era pavimentada somente até o cruzamento com a rua do Centenário e ainda se chamava rua 15 de Novembro. Inicialmente, o diretor da escola foi o Sr. Jorge Romeu Dadam, posteriormente substituído pela Sra. Edmée Novaes Vidotto.

 

Para anunciar o início e o término das aulas, o servente (zelador) tocava uma sineta enorme, que ecoava por toda escola.

 

A escola era formada por dois prédios laterais compridos, com dois pavimentos, interligados na parte da frente. Entre esses dois prédios ficava a quadra de vôlei. No primeiro ano, minha sala ficava na parte térrea do prédio da esquerda, vizinho da Villa Quisisana, o casarão da família Pastor.

 

Ao lado dos prédios, onde atualmente existe uma quadra coberta, havia um campinho de formato oval que servia para a prática de futebol. Quando havia aula de educação física e éramos liberados para a prática desse esporte, ocorria uma situação hilariante: como o gramado era de dimensões reduzidas e o número de briosos praticantes era muito grande (algumas dezenas), muitos sequer tocavam na bola durante todo o jogo! Para piorar a situação, como todos gostavam de jogar futebol, às vezes havia mais de dez disputando a posse da redonda. Certa feita, fomos a pé até o campo de futebol dos padres, que ficava nos fundos da Igreja Matriz católica. Éramos em dezenas, e da mesma forma, foram poucos o que conseguiram tocar na bola.

 

Na grande enchente que ocorreu na cidade de Brusque, em 1961, pousou um helicóptero no campinho da escola, pois esse educandário ficava num terreno mais elevado em relação à rua. Todavia, não consegui vê-lo, pois era impossível chegar lá, a não ser de canoa. Recordo-me que, na enchente de 1961, a água chegou próximo à venda de Anselmo Imhof (Selmo), na rua São Leopoldo, que era uma construção de madeira erguida sobre pilares, e que, numa pequena sala do seu lado direito, abrigava a Barbearia Imhof, de Abércio Imhof (Pessi).

 

Todo ano, no dia 7 de setembro, desfilávamos garbosamente ao som da fanfarra da escola pela avenida Cônsul Carlos Renaux, porém, em um ano, o desfile ocorreu na rua Rodrigues Alves, a rua da escola.

 

O dia mais temido do calendário escolar era aquele em que deveríamos tomar o remédio para "bichas", as famosas lombrigas! Em tese, todos deveríamos tomar, mas não era o que ocorria, pois alguns nesse fatídico dia saíam de casa mas não chegavam à escola. Foi o caso de um colega da rua São Pedro: no meu retorno da escola, encontrei-o sentado em frente à funilaria do Sr. Waldemar Becker, na rua Barão do Rio Branco e onde trabalhava um irmão seu, quando confidenciou-me que havia permanecido lá durante a manhã inteira para evitar ingerir o famigerado remédio.

 

Certa feita, estávamos enfileirados, no corredor do segundo pavimento, quando um colega encrenqueiro, que residia próximo ao Tiro de Guerra e estava atrás de mim, sem mais nem menos, desferiu um tapa na minha orelha. Para surpresa geral, a professora, que estava postada atrás dele, aplicou-lhe um formidável e sonoro sopapo, seguido de uma reprimenda em voz alta, para que todos ouvíssemos. Disse que já o conhecia de longa data, e sabia que o mesmo costumava comportar-se mal. Disse mais: que gostaria que todos que ali estivessem estudassem com afinco, para que um dia fossem alguém na vida. Foi uma cena muito proveitosa para o colega, que passou a comportar-se melhor, e também para mim, como incentivo aos estudos, porque havia uma cultura, uma mentalidade, naqueles tempos, de que filho de pedreiro, pedreiro seria; filho de servente, servente seria! 

 

Num dia em que a cidade de Brusque estava sob ameaça de enchente e o rio Itajaí-Mirim com a água acima do seu nível normal, a escola proibiu terminantemente seus alunos de saírem do seu interior. Ocorre que dois colegas mais curiosos e afoitos não se contiveram e resolveram sair pelo portão dos fundos, com destino ao rio, a fim de verificar a situação. Após muita insistência, resolvi aceitar o convite para acompanhá-los, apesar de ter muito medo de água. Para azar nosso, o zelador nos surpreendeu no retorno, e nos denunciou, cumprindo com o seu dever. Como castigo, tivemos que permanecer durante todo o recreio sentados na escada da porta da zeladoria, à vista de todos.

 

Naquela época, era comum vendedores passarem nas residências, comércio e escolas para oferecer palmito-juçara in natura, em cabeças (com casca), pois esse produto ainda era encontrado em nossas matas com certa facilidade. Numa ocasião, minha professora adquiriu quatro cabeças de palmito, em duas amarras de cipó, e perguntou quem passaria próximo à sua casa e poderia levá-las. Eu e mais outro colega fomos voluntários para essa inglória tarefa. Não imaginava que fosse um fardo tão pesado, e até chegar à casa da professora, tive que mudar a "carga" várias vezes: ora carregava nos ombros, ora na mão mesmo. Ao chegar ao destino, cansado e dolorido, cheguei à conclusão de que a minha incursão pelo mundo dos "puxa-saco" e dos "burros de carga" não teria sido nada agradável.

 

Como recordação dessa inesquecível escola, restou uma foto de 1960, quando estava cursando o segundo ano. O fotógrafo permitiu que levássemos a foto para casa, a fim de trazermos o dinheiro no dia seguinte, ou devolvê-la, caso não quiséssemos comprá-la. Quando falei para minha mãe sobre a foto, ela estava sentada em um banquinho, ordenhando uma vaca. Mostrou-se indignada com o preço e não queria adquiri-la de forma alguma, mas ao final cedeu, após muita insistência minha.

 

Grupo Escolar Feliciano Pires, saudades da minha primeira escola!

 

1. João Imhof e Antônio Imhof (Toni) eram tios do meu pai, e de tanto ouvi-lo chamá-los de tios, eu, meus irmãos e irmãs fazíamos o mesmo.

2. Vasilha grande, de cobre ou de ferro, com asas ou cabo, utilizada para cozimentos.