Banqueiros alemães no século XVI

Muitas outras firmas comerciais estabelecidas no Sul da Alemanha tiveram uma importância considerável e influíram poderosamente na vida econômica sem, no entanto, poderem ser comparadas aos Fugger e Welser. Destacaram-se principalmente os Hochstetter, os Manlich, os Imhof, os Herwart, os Baumgartner, etc.

Em maio, Lucas Rem, que permaneceu em Portugal de 1503 até 1508 e a quem devemos um grande número de informações contidas em seu minucioso diário, instalou a primeira feitoria alemã em Lisboa. No outono de 1503 deve ter aparecido em Lisboa um agente dos Fugger, pois a 6 de outubro D. Manuel deu a Ulrich Fugger e a seus irmãos um privilégio que, na realidade, nada mais era que a extensão aos Fugger do privilégio conseguido por Seitz. Haebler afirma que o conteúdo dos diferentes parágrafos coincide quase verbalmente com o primeiro. Conseguiram que a taxa aduaneira fosse abaixada de 10% para 5%. As restrições continuaram vigorando. Outros alemães, como os Imhof, os Hirschvogel e os Hochstetter devem ter seguido os Fugger imediatamente, pois todos participaram da expedição de 1505. Mas, sem dúvida, foram os Welser que mais se destacaram. Perceberam que italianos tomavam parte em diversas frotas. Assim, o principal trabalho da feitoria de Rem foi conseguir as mesmas vantagens. Por intermédio do humanista Peutinger, os Welser conseguiram cartas de recomendação de Maximiliano I e de Filipe-o-Belo a D. Manuel. Pediram para participar na frota de Lopo Soares em 1504, tendo à sua disposição uma soma de 20.000 ducados em dinheiro e em mercadorias (Haebler 1903: 15-16). D. Manuel, entretanto, não acedeu a esse pedido, mas logo, devido à necessidade de capitais, mudou de ideia. Lucas Rem conseguiu um novo acordo a 1 de agosto de 1504. Rem, entretanto, diz pouquíssimo sobre o acordo: "A primeiro de agosto fizemos o tratado com o rei de Portugal para a armação de 3 navios para as Índias. Saíram a 25 de março de 1504.

Os historiadores não estão de acordo quanto à participação alemã na expedição de 1505. Alguns autores, entre os quais Schmidt (1927: 104), afirmam que os Welser, associados aos Hochstetter, Hirschvogel e Imhof armaram por conta própria 3 navios. Haebler (1903: 18) acha que talvez apenas um navio era inteiramente alemão. Ao que parece, nessa viagem um consórcio de alemães e de italianos (entre os quais se destaca Marchione) forneceram os navios que não eram de propriedade real. Nesse consórcio os Welser eram muitos, se não os mais importantes, pois participaram com 20 mil cruzados, o grupo de Marchione (florentinos e genoveses estavam aliados a ele) com 29.400 e os Fugger com apenas 7 mil . Nessa expedição pelo menos um alemão foi à Índia – Baltasar Sprenger. Provavelmente viajou como agente dos Welser. O lucro da expedição foi muito bom. Rem afirma que "o lucro calculado dessa viagem foi de cerca de 150%" (1861: 9).

A coroa portuguesa cedo restringiu a participação estrangeira no comércio colonial. Devido a isso e devido às contínuas questões judiciárias com a coroa, os alemães preferiram a Espanha ou então o comércio redistribuidor de especiarias. Welser, Fugger, Hochstetter, Behaim, Hirschvogel, Tucher, Imhof compravam a pimenta e as outras especiarias diretamente na Casa da Índia e levavam-nas principalmente para Antuérpia. As firmas de Augsburgo foram se tornando cada vez mais importantes no comércio europeu.

Os Welser, Imhof, Rott, Tucher etc. também tiveram um papel de destaque na vida econômica da Espanha. Carlos V e Filipe II, apesar de donos de vastíssimo império, sempre tinham necessidade de crédito. Recorriam ao arrendamento de rendas públicas, como com os Fugger, ou pediam somas adiantadas sobre carregamento de metais preciosos provenientes da América. É interessante notar que os Welser preferiram os negócios coloniais, enquanto que os Fugger cedo chegaram à conclusão que para reaver as somas empatadas, era melhor explorar a Espanha. Mas já em 1557, Filipe II em Valladolid publicou um decreto consolidando a dívida pública e ofereceu em troca juros do Estado a 5%. As consequências dessa consolidação forçada fizeram-se sentir em toda a Espanha. Esta começou a marchar de uma crise financeira para outra, chegando a ter no começo do século XVII um meio circulante de cobre (Ehrenberg 1896: 155 e 260). A partir da primeira bancarrota e principalmente depois de 1571, os Fugger cederam lugar aos genoveses. As outras casas bancárias alemãs já a partir de 1550 foram se afastando cada vez mais, deixando não raro aos Fugger a gerência de seus interesses.

 

SCHORER, Maria Teresa. Notas para o estudo das relações dos banqueiros alemães com o empreendimento colonial dos países ibéricos na América no século XVI.  Revista de História. Departamento de História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP. Números 142-43 - 1º e 2º semestres de 2000. pp. 15-23-24-25-26-27-30-31.

 

Nota: Não existe qualquer evidência de que os banqueiros Imhof, acima citados, façam parte da nossa família. A inserção do texto neste site tem por escopo apenas o conhecimento histórico.