Alfredo Imhof (Fredo), meu grande amigo

Francisco Daniel Imhof

         

Minha alfabetização iniciou-se em 1959, aos oito anos de idade, como era comum naqueles tempos, quando fui matriculado no Grupo Escolar Feliciano Pires, no centro de Brusque.

 

Meu pai, de profissão pedreiro, e minha mãe, doméstica, tiveram seis filhos. Em nossa casa, situada em região tipicamente rural, não existiam livros, revistas ou jornais para ler. A exceção era o Almanaque Renascim Sadol, produzido pelo Laboratório Catarinense e distribuído pelas farmácias uma vez por ano, na época de natal. Esse pequeno livreto trazia dicas de técnicas agrícolas, jardinagem e saúde, fatos históricos, piadas, receitas culinárias, dias propícios à pesca, calendário, etc.

 

Naqueles idos, meu lazer consistia em disputar peladas de futebol, caçar passarinhos com funda (estilingue), descer o morro de zorra (espécie de trenó de madeira usado na roça para transportar produtos) ou com a capa do cacho do coqueiro, jogar "clica" (bolinhas de vidro), rodar piões ou tomar banho nos córregos, improvisando o represamento da água com tábuas.

 

Muito embora gostasse muito de disputar as peladas, nem sempre tinha lugar garantido no time, pois eram conhecidas as minhas limitações, já que costumava chutar mais a grama e a canela dos pobres adversários do que a bola; os passarinhos se desviavam bem das minhas investidas com as pelotas de barro, descer o morro de zorra era muito bom, mas subir de volta era muito cansativo, e tomar banho em riacho não me atraía muito, pois tinha medo de água.

 

Desde os primeiros dias de aula, senti-me apaixonado pela leitura, que foi se acentuando com o decorrer do tempo. Por volta de 1961, quando tinha dez anos de idade, tomei conhecimento de que Alfredo Imhof, primo do meu pai e sete anos mais velho do que eu, possuía muitos gibis (revistas em quadrinhos). Foi então que o procurei para saber se os emprestaria. Sendo excessivamente tímido, somente o contatei porque sabia que ele era uma pessoa muito benquista e gentil, e, para minha alegria, sua resposta foi positiva!

 

Durante a semana, quando voltava da escola, ajudava no trabalho da roça e não dispunha de tempo livre. Assim, aos domingos, seguia todo um ritual: após o almoço, tão logo acabava de degustar o saboroso pudim servido como sobremesa que minha mãe preparava com o pó para pudim Medeiros, partia ansiosamente em busca do meu tão almejado lazer dominical.

 

Nas imediações, a maioria das propriedades era de descendentes de imigrantes alemães e italianos, e idênticas: em torno das casas havia o forno a lenha para fazer pão, um quintal colorido com muitas flores (especialmente roseiras) e a horta, com muitas variedades de verduras, legumes e hortaliças; o pomar, com diversas espécies de árvores frutíferas; o rancho de madeira, onde eram armazenados ferramentas e produtos agrícolas e também abrigava o estábulo (estrebaria), o galinheiro e os pastos. Geralmente, a horta era protegida por uma cerca de mourões e sarrafos de madeira.

 

As propriedades eram demarcadas com cercas de mourões de madeira e arame farpado, e no seu interior existiam ribeirões, onde o gado saciava a sede. As cercas serviam apenas para  evitar a fuga do gado, pois ainda não havia a proliferação dos "amigos do alheio". Não fosse pelo gado, as propriedades seriam demarcadas apenas por algumas pedras (que eram chamadas, nesse caso, de "rumo"). As portas e janelas permaneciam abertas durante todo o dia, e, à noite, quando fazia calor, as pessoas podiam dormir com a janela aberta. Dessa forma, era possível passar tranquilamente por uma ou mais propriedades para alcançar outras, pois todos os moradores se conheciam. 

 

Para chegar à casa do Alfredo, primeiro me utilizava de uma escadinha de madeira que havia na cerca de arame farpado que separava a nossa propriedade e a da família Zimmermann, cuja matriarca, Sra. Othilia Hörner Zimmermann, era uma vizinha muito trabalhadeira, amiga e prestativa, que costumava passar horas conversando em alemão com a minha mãe. A seguir, caminhava no pasto da D. Othilia, onde atravessava um  ribeirão sobre um tronco de madeira, depois pulava outro ribeirão e, por último, me utilizava de mais uma escadinha de madeira para chegar à propriedade do "tio Leo".

 

Ao chegar à casa do Alfredo, entrava numa sala onde havia, no lado direito, um armário com duas gavetas enormes na parte inferior, lotadas com centenas de gibis. No entanto, minha entrada nunca era imediata: sempre ficava aguardando a chegada de alguém, que geralmente era a "tia Maria", mãe do Alfredo, uma mulher baixa, de voz rouca e muito bondosa. Às vezes, esperava em torno de uma hora, pois depois do almoço de domingo as pessoas costumavam "tirar uma soneca". Tanto o Alfredo quanto a "tia Maria" insistiam para que, assim que chegasse, adentrasse a casa (a porta ficava sempre aberta), mas eu temia que isso fosse considerado uma invasão e não fosse mais permitido o meu acesso.

 

Nesses gibis, desfrutei a leitura de maravilhosas estórias dos seguintes personagens, dentre dezenas de outros que nem me recordo mais:

- Pato Donald, Zé Carioca, Huginho, Zezinho e Luizinho, Margarida, Tio Patinhas, Gastão, Vovó Donalda, Gansolino, Professor Ludovico, Professor Pardal, Irmãos Metralha, Mamãe Metralha, Maga Patalógika, Peninha, Tico e Teco e Leopoldo;

- Mickey, Minnie, Pateta, Pluto, Bafo-de-Onça, Horácio, Clarabela e Coronel Cintra;

- Bolinha, Luluzinha, Aninha, Carequinha, Glória, Alvinho, Plínio e Dona Marocas; 

- Recruta Zero, Zorro, Sargento Garcia, Tonto, Rin-tin-tin, Jerônimo, Tarzan , Jane, Chita e Búfalo Bill.

 

Muito embora Alfredo insistisse em dizer que poderia escolher e levar quantos gibis eu quisesse, nunca levava mais que seis a oito, pois pensava que aquilo era uma relação de confiança, e não poderia quebrá-la: na semana seguinte, deveria devolvê-los todos.

 

No meu retorno para casa, segurando os gibis parecendo um troféu conquistado, ia caminhando olhando ansiosamente várias vezes as capas, com vontade de ler tudo de imediato, mas resistia até chegar ao destino. Ficava a tarde inteira em casa lendo até terminar, e, à medida que a leitura se aproximava das últimas páginas, ficava acometido de uma certa tristeza.

 

Esse gosto pela leitura de gibis foi assimilado pelas minhas duas filhas Solange e Marina: durante a infância delas, quando ainda não havia internet, eu costumava ir todos os domingos de manhã cedo comprar jornais, e gostava de levá-las junto. Mas para que isso se concretizasse, elas me chantageavam: só iriam mediante a promessa de comprar gibis para elas, já que isso ocorreu da primeira vez que as levei junto. Os personagens dos gibis eram os mesmos da minha infância, exceto os do último parágrafo da relação acima, mais ao gosto masculino, mas o que elas mais gostavam eram os personagens mais recentes, criados pelo cartunista brasileiro Mauricio de Sousa: Mônica, Cebolinha, Cascão, Chico Bento e Magali.

 

Alfredo Imhof foi meu grande Amigo, o maior Amigo da minha infância. Ele foi uma pessoa que admiro muito e sempre me recordo, pelas suas qualidades, especialmente pela sua bondade e pelo seu bom caráter.

 

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Alfredo Imhof (*02.10.1943 - Brusque, +13.06.2014 - Brusque), era filho de Leopoldo Imhof (Leo) e Maria Fischer Imhof, neto de Leopold Imhof e Catterina Maria Maddalena Carneri, bisneto de Franz Xaver Imhof e Maria Regina Schmitt.

Começou a trabalhar na venda do seu irmão Anselmo Imhof (Selmo) na função de balconista (caixeiro) aos quatorze anos de idade, até mais ou menos o início da década de 1960, depois trabalhou na mesma função na empresa Irmãos Malossi, de onde saiu para trabalhar na Feira Livre de Brusque - Associação dos Servidores Públicos Municipais; posteriormente, na empresa Archer S/A Atacado e Varejo. Em meados da década de 1960, iniciou na função de aprendiz relojoeiro na oficina do seu cunhado Alberto Bastiani (Betinho), atualmente Relojoaria Stonfer Ltda., onde atuou por mais de quarenta anos com muita dedicação.

Seu hobby era a fotografia, tanto que desde jovem usava uma máquina fotográfica Kapsa da Kodack, do seu irmão Hercílio Imhof (Cilho). Sua primeira máquina fotográfica foi uma Beirette (alemã), adquirida na loja do Sr. Zezo Scharf, depois teve várias outras, das marcas Nikon, Canon, Konica, Minolta, Olympus, todas com filme 35 mm. Na década de 1970, teve a iniciativa de criar um clube que congregasse os apaixonados pela fotografia em Brusque. Apresentou a sugestão para alguns amigos, dentre os quais, Armando Schlindwein. A primeira reunião ocorreu em uma lanchonete nos fundos do pavilhão de esportes, com a presença de apenas três pessoas. Apesar de decepcionado com a pouca adesão, não desistiu. Como o Armando era amigo de Altair de Oliveira, funcionário do SESC, conseguiu um espaço nas dependências daquela entidade, e então a nova reunião foi realizada com uma presença maior. Assim, quase no final da década de 1970, no dia 19 de agosto (dia mundial da fotografia), foi fundado o GAMARF - Grupo Amador de Arte Fotográfica. Os presentes elegeram Alfredo Imhof como seu primeiro presidente, por ter sido seu idealizador e fundador. O GAMARF foi associado da CBFC (Confederação Brasileira de Fotografia e Cinema e também do CFCB (Cine Foto Clube do Bandeirante), de São Paulo. O GAMARF trouxe a Brusque em 1982 a 2ª Bienal Nacional de Fotografia (preto e branco). Houve uma época em que o grupo chegou a ter mais de vinte sócios, que foi reduzido em função da inflação muito alta na década de 1980, o que fazia com que os preços dos filmes e revelações sofressem reajustes diários. Em 1980, Alfredo Imhof foi premiado no Concurso Estadual de Fotos, promovido pelo Museu Fritz Müller e pela Prefeitura Municipal de Blumenau  com o primeiro e terceiro lugares, além de menções honrosas. Em outubro de 2009 promoveu, juntamente com Eleutério Graf (Telo), a Exposição Fotográfica Vidanimal.

Alfredo também foi praticante do ciclismo, esporte assimilado pelos seus filhos Léo Rodolfo e Darbei, sócios da empresa Dar Bike Comércio de Bicicletas Ltda.. Vencer grandes distâncias pedalando a sua bicicleta era uma rotina seguida desde a juventude, quando costumava visitar sua irmã Theresa Imhof Isensee, em Gaspar, a uma distância aproximada de 50 km (ida e volta). Participou de muitos passeios ciclísticos de longa distância. Quando tinha em torno de treze anos, Alfredo costumava levar alguns gibis para serem trocados com vários apreciadores, que se reuniam em frente aos cinemas, sempre aos domingos, antes da sessão matinê das 14h.

Alfredo era ainda um exímio desenhista: o desenho da casa que foi de seus avós Leopold Imhof e Catterina Maria Maddalena Carneri Imhof, capa do livro "Família Imhof caminhando para a oitava geração", é de sua autoria.