A religião na minha infância

Francisco Daniel Imhof

 

Nascido e criado no seio de uma família de tradicional formação católica apostólica romana, na minha mais tenra idade já era compelido a frequentar a missa na igreja matriz no centro de Brusque, na década de 1950.

 

 Em 1954, a velha igreja matriz situada no alto do morro havia sido demolida para a construção da atual, de pedra, e por esta razão as missas passaram a ser realizadas no salão da Casa São José, na parte baixa.

 

Era um período anterior ao Concílio Vaticano II, em que o uso da batina pelos padres era obrigatório e as missas rezadas em latim, com o padre voltado para o altar, de costas para os fiéis, e apenas membros do clero comandavam a celebração. Um detalhe curioso é que os homens ficavam de um lado da igreja; as mulheres, do outro.

 

Sendo a missa rezada em latim, é evidente que eu não entendia bulhufas, e duvido que, além do padre, mais alguém estivesse entendendo tantas palavras que soavam mais como palavrões. Os fiéis mais pareciam uns papagaios repetindo em coro aquela lengalenga, sem compreender o seu significado. As crianças até faziam pilhérias com as expressões utilizadas: "Dominus Vobiscum" que significa "O Senhor esteja convosco", seria "Dorme com o bispo" e a expressão "Et cum spiritu tuo", que significa "E com o vosso espírito", que os fiéis respondiam e sequer sabiam pronunciar direito, seria "E contigo também".

 

Era muita pretensão da Igreja de Roma que seus fiéis, em sua maioria de pouca escolaridade e que mal sabiam ler e escrever em português, soubessem a pronúncia e o significado de um vasto palavreado em latim.

 

Não bastasse isso, havia ainda um padre com fama de brabo e cheio de empáfia, conhecido como padre Pitoco, por lhe faltar a parte de um dedo em uma das mãos. Em seus cansativos sermões, parecia que estava declarando guerra, idêntico a Hitler, só lhe faltava o ridículo bigode.

 

Os santinhos (pequenos papéis distribuídos durante a missa), traziam imagens coloridas de santos e do terrível e ameaçador demônio (capeta) e seu inseparável garfo no fogo eterno do inferno, reservado a quem tivesse a audácia de desobedecer as normas católicas. A Igreja Católica procurava convencer seus fiéis de que só havia uma alternativa para escapar do temível inferno depois da morte: seguir cegamente os seus preceitos. Para que seus seguidores pudessem escapar do inferno e conseguir subir aos céus, além de seguirem as normas da igreja, os fiéis deveriam levar uma vida de sofrimento, tal qual seus mártires da fé.

 

O contato com essas imagens diabólicas, aliado às ameaças de minha mãe, que sempre invocava os castigos eternos ao menor sinal de desobediência, faziam com que eu tivesse pesadelos à noite, em que acordava todo suado.

 

Quando acontecia um infortúnio a qualquer pessoa que não fosse religiosa, alguns fiéis não perdiam a oportunidade de imputar este fato à falta de religiosidade da vítima, mas o contrário não acontecia, ou seja, se uma pessoa religiosa sofria um revés em sua vida, não era feita associação alguma com a sua religiosidade.    

 

Quando uma pessoa católica casava-se com alguém de outra religião e aderia a ela, comentava-se que "virou de religião". Por outra religião entenda-se, é claro, a religião luterana, pois naquela época estas duas correntes reinavam quase que absolutas, já que não enfrentavam a forte concorrência existente atualmente, onde as denominações religiosas proliferaram e superaram a quantidade de botecos, arrecadam grandes somas e gozam de imunidade tributária, além de, em muitos casos, propiciarem uma vida nababesca a seus líderes.

 

Comparecer à missa dominical, naqueles idos, equivalia a um atestado de boa conduta, na visão de muitos fiéis. Um conhecido advogado e vereador era presença constante nas missas, todavia, durante o sermão, lia pacientemente o seu jornal. Em conversas de mulheres idosas, captei diálogos interessantes como, por exemplo, ao se referirem a um conhecido proprietário de bordel, uma delas comentou: "ele explora essa atividade, mas é uma boa pessoa, porque vai sempre à missa aos domingos".

 

Durante as missas alguns voluntários passavam por entre os fiéis com uma cestinha para recolher donativos em dinheiro. Um deles era o Sr. José Imhof (Zepim), que tinha uma forma muito engraçada de agradecer: a cada nota depositada, balançava afirmativamente a cabeça, sorria discretamente e colocava a mão sobre as notas para que elas não caíssem.

 

Ao retornar da missa, minha mãe me submetia a um interrogatório: "quem foi o padre celebrante, o que ele falou na prática (sermão)?"

 

A fim de angariar recursos para a manutenção e ampliação de suas atividades, a igreja promovia a grande festa anual do seu padroeiro, São Luis Gonzaga. Alguns membros da igreja passavam nas casas arrecadando donativos para a festa: aves, ovos, leite, manteiga, nata, cucas, bolos, etc. Nestas festas, animadas por bandas, havia barracas de venda de churrasco, galinha assada, cachorro-quente, pipoca, bolos, cucas, doces, frutas, refrigerantes, rifas, roda da fortuna e pescaria, e também a venda de bebidas alcoólicas, ou seja, após a missa, quando o celebrante usava a sua condição de líder religioso para emitir conselhos, estava liberado o consumo de bebida alcoólica em seus próprios domínios.

 

Certo dia, quando eu e meu irmão mais novo íamos à missa e passávamos pela av. Cônsul Carlos Renaux, em frente ao extinto Cine Coliseu, nos deparamos com o Sr. Henrique Brattig, seu proprietário, que solicitou que levássemos um cavalete com propaganda dos filmes que seriam exibidos naquele dia, até em frente ao Café Pigalle, por onde passavam os fiéis quando saíam da missa. Ao chegarmos ao destino, ele nos deu uma gorjeta, suficiente para comprarmos pipoca.

 

Todo ano, na época de Natal, minha mãe se esmerava em fazer um presépio na sala de casa, com um cenário que imitava tudo relativo ao nascimento de Jesus, como manjedoura, figuras humanas, animais, estradas, árvores, etc. Aí tínhamos que ir aos matos, às vezes passando por brejos em que afundávamos até os joelhos, em busca de barba-de-velho, uma espécie de pelos brancos que pendiam dos galhos de árvores muito antigas, além de plantas orquidáceas.

 

Em preparação para a minha primeira comunhão, frequentei aulas de catequese (naquela época se chamava doutrina), numa sala muito quente e abafada do Grupo Escolar Santo Antônio. Quando dois ou três alunos se comportavam mal, a catequista, ainda jovem, liberava as alunas no horário previsto, mas retinha todos os alunos como forma de castigo, tivessem se comportado bem ou não.

 

Para a cerimônia da minha primeira comunhão, minha mãe encomendou a confecção de um terno para o Sr. Vicente Kohler, um alfaiate que morava na rua São Pedro, a uns 200 metros à direita após a rua Theodoro Albrescht. Para tanto, fomos lá duas vezes, a pé, em domingos quentes e ensolarados, percorrendo 3,5 km na ida, mais outro tanto na volta, quando o final da rua São Leopoldo ainda era uma picada, onde atualmente é a rua Gustavo Imhof.

 

A celebração da minha primeira comunhão já se deu na igreja matriz nova, em 1960. Seguindo a tradição local, meus pais fizeram uma festa em casa, onde foi levantada uma barraca comprida de lona, tendo nas extremidades ramos de palmeira (palmito juçara). Sob a barraca, uma mesa comprida montada sobre cavaletes, com bancos de cada lado, onde foi servido um lauto almoço, com diversos tipos de carnes assadas em forno a lenha e vários acompanhamentos, além de um variado café da tarde.

 

Nunca consegui entender por que uma criança de nove anos (como foi no meu caso), quando recebe a primeira comunhão, tem de se confessar, ou seja, enfrentar o constrangimento de uma fila, depois se ajoelhar no confessionário, contar os supostos pecados para um comedor de feijão qualquer, solicitar a absolvição e receber uma penitência! Quais seriam os pecados de uma criança de nove, dez, onze anos? A cada missa, tinha que receber a comunhão, não sem antes "confessar" os supostos "pecados". Antes de cada confissão, já ao sair de casa, era acometido de uma grande ansiedade, porque deveria descobrir quais teriam sido os supostos "pecados" que eu teria cometido desde a última confissão.

 

A única lembrança boa que tenho da religião na minha infância são os sinos que eu tocava antes da missa junto com Valdemar Zendron, na igreja matriz nova, lá pelos idos de 1961, 1962, quando tinha dez, onze anos. Valdemar Zendron era uma pessoa muito bondosa, benquista, engraçada e bastante conhecida na cidade, e sua grande paixão era tocar os sinos da igreja, onde dividia a tarefa com alguns garotos. O sino maior sempre ficava sob a responsabilidade dele, que já era adulto. Para iniciar o toque, precisava inicialmente me pendurar na corda, depois era só alegria. Quando retornava da missa e comentava com a minha mãe que o Valdemar Zendron havia permitido que eu tocasse o sino, ela sempre solicitava que eu perguntasse se ele lembrava-se dela, pois havia sido sua babá.

 

A minha vida religiosa resume-se à infância, pois a lavagem cerebral felizmente não surtiu efeito no meu caso: já em torno de quinze anos, tive o discernimento suficiente para perceber que todos os deuses, religiões, rituais e símbolos religiosos são invenções meramente humanas. Como exemplo, cito o limbo, criado por São Gregório no século IV, para onde supostamente iam os bebês que morriam sem ser batizados, e que, em abril de 2007, a Igreja Católica, depois de séculos, voltou atrás e admitiu que não existe. Cheguei à conclusão de que todas as religiões são basicamente iguais, com variações apenas na forma de culto, e significam culpa, sofrimento, humilhação, idolatria e ilusão.

"Por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um”. Essas religiões exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte." Michel Onfray

Nota: Na Família Imhof existem (em ordem alfabética): agnósticos, ateus e cristãos (a maioria). Dentre os cristãos, a maioria segue a Igreja Católica Apostólica Romana, alguns seguem a Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e uns poucos seguem outras denominações. Este artigo retrata uma história de vida pessoal, e não reflete o pensamente predominante na família.

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