A Peterstrasse em Brusque

Francisco Daniel Imhof

 

A palavra alemã Peterstraβe em português significa rua Pedro (se fosse rua São Pedro, seria St-Peter-Straβe).

 

Na Peterstrasse, atual rua São Pedro, na Colônia Itajahy, atual cidade de Brusque, se estabeleceram algumas famílias de imigrantes alemães que chegaram  na segunda leva, em 19.08.1860, dentre as quais, a de Franz Xaver Imhof e Maria Regina Schmitt Imhof.

 

A rua São Pedro, que muitos ainda chamam de Peterstrasse e pronunciam "Pedastrasse", é uma extensa rua de 8,1 km que se inicia no final da rua Felipe Schmidt e termina no município de Guabiruba (numa bifurcação onde começam as ruas Alsácia e Lorena), que foi distrito de Brusque até 1962, quando se emancipou. Em Brusque, essa rua tem uma extensão de 5,3 km; em Guabiruba, de 2,8 km. Tanto em Brusque quanto em Guabiruba, essa rua faz parte do bairro São Pedro. Antigamente, a Peterstrasse era uma rua onde predominavam propriedades rurais com belas casas (algumas de enxaimel) em toda a sua extensão. Havia também alguns engenhos e olarias, como as de Pedro Pellenz e Nicolau Daniel Imhof. A olaria de Nicolau Daniel Imhof possuía uma carroça puxada por quatro cavalos para o transporte de seus produtos. Na década de 1950 possuía um caminhão que, aos domingos de manhã, era utilizado no transporte dos moradores da vizinhança, na carroceria descoberta, onde sentavam em bancos, para levá-los ao centro da cidade, a fim de assistirem à missa no templo da Igreja Matriz.

 

Essa rua recebeu o nome de um santo (São Pedro), devido à religiosidade de seus moradores, que eram em sua maioria católicos; todavia, existem muitas especulações acerca do motivo pelo qual esse logradouro teria recebido a denominação "Peter" (Pedro), ainda na década de 1860, sendo aventados vários nomes como prováveis homenageados: Pedro Gracher, Pedro Pellenz, Peter Joseph Werner (Pedro José Werner) e Peter Jacob Heil (Pedro Jacó Heil).

 

Pedro Gracher residiu em um casarão na bifurcação das ruas São Pedro e Anita Garibaldi, em cujas terras anexas, que faziam frente para a rua São Pedro, criou gado, onde atualmente há uma rua que leva seu nome. Podemos asseverar que a Peterstrasse não recebeu essa denominação em sua homenagem, haja vista que a família Gracher não foi uma das primeiras colonizadoras de Brusque.

 

Pedro Pellenz residiu na Peterstrasse, numa colina conhecida como "morro do Pedro Pellenz", na divisa entre Brusque e Guabiruba, onde possuía uma olaria. Era um cidadão folclórico e carismático, muito conhecido em Brusque pelo seu andar típico, por trajar um terno escuro, chapéu de feltro e alpercatas, acompanhado de seu inseparável guarda-chuva suspenso no braço. Também era visto constantemente na boleia de sua carroça, que utilizava para passeio e entrega dos produtos de sua olaria. Podemos afiançar que a Peterstrasse não recebeu esse nome em sua homenagem, pois ele sequer era nascido na década de 1860.

 

Peter Joseph Werner (Pedro José Werner) foi um imigrante alemão que, na falta de outra construção apropriada, acolheu em seus ranchos os primeiros colonos que chegaram a Brusque. Era proprietário de engenho de farinha, serraria e olaria, além de latifundiário, possuindo terras dos dois lados do rio Itajaí-Mirim, e morava nas imediações da atual rua Pedro Werner.1 Seu nome está descartado como um dos prováveis homenageados com a denominação, não só pelo fato de outra via pública em Brusque ter recebido o nome pelo qual ele era conhecido, mas também por outro motivo que abordaremos ao final deste artigo.

 

Peter Jacob Heil (Pedro Jacó Heil) foi um dos integrantes da segunda leva de imigrantes alemães que chegaram a Brusque em 19.08.1860 e se estabeleceram na Peterstrasse. Prosperou e passou a ser abastado negociante, proprietário de venda, hospedaria e várias casas na rua principal da sede da Colônia. Foi 1º suplente de Delegado de Polícia de Itajaí e Colônia Príncipe D. Pedro.2  Foi também vereador eleito da primeira Câmara de Vereadores de Brusque, em 1883, tendo sido seu presidente em 1885.3

Defendendo essa última hipótese, tem-se o brilhante historiador Ayres Gevaerd, que se notabilizou pelas suas pesquisas sobre a história de Brusque, e que, com base em suas fontes, concluiu: "Peter Jacob Heil, 1860, lavrador, dono de engenhos de farinha, residindo na linha Peterstrasse, tendo seu nome dado origem à designação conservada até hoje".4

Não obstante, em que pese a respeitável biografia do referido historiador, convencemo-nos de que seja outra a verdadeira razão da nomenclatura em comento, sobretudo a partir das fontes que consultamos. Neste norte, os registros históricos a seguir reproduzidos (mantida a ortografia original), não deixam dúvida quanto à identidade do verdadeiro homenageado pela denominação dessa via.

"Uma transversal, unindo D. Pedro (Peterstrasse) às Bateias, contava 418 braças de caminho carroçável." (Relatório do Barão de Schneeburg, de 1862).5

 

"Mas era preciso atender que, na Estrada D. Pedro (Peterstrasse) e nas Bateias, uma légua distante da Sede, outros 16 a 20 meninos também precisavam de escola, meninos que já recebiam ensinamentos de doutrina e até de primeiras letras, havia três meses, ministrados pelo colono Francisco Weiggennant, em sua própria casa." (Doc. 7/7/1863)6

 

 "Tabella de todos os caminhos na Colônia em 31 de dezembro de 1862.

 5ª. via: da Sede da Colônia à Dom Pedro’s-Strasse em toda extensão da mesma: 2,150 braças de rodagem.

 6ª. via: da D. Pedro’s-Strasse aos antigos lotes dos Holsassos7 na Batéas, caminho da Independencia: 500 braças de rodagem.

 7ª. via:  A Transversal que une a D. Pedro’s Strasse, com os lotes dos Colonos que se conservarão nas Batéas:  418 braças de rodagem”.8

 

Como se infere dos textos reproduzidos, relativos aos anos de 1862 e 1863, o nome atribuído à Peterstrasse foi uma homenagem a D. Pedro II, Imperador do Brasil naquela época.

 

"Dom" é um título honorífico; e Peter Jacob Heil, assim como todos os demais colonos que chegaram a Brusque na década de 1860, não possuíam qualquer denominação honorífica, nem pertenciam à nobreza.

 

 Na década de 1860, uma localidade também foi denominada em homenagem a D. Pedro II: a Colônia Príncipe Dom Pedro, criada pelo Decreto de 16 de janeiro de 1866, foi instalada a 15 de fevereiro do ano seguinte, também à margem do Itajaí-Mirim, só que à direita, justamente na confluência do ribeirão das Águas Claras sobre aquele rio, poucos quilômetros acima da sede da Colônia Brusque. A 6 de dezembro de 1869, a Colônia Príncipe D. Pedro foi extinta pelo Governo Imperial, anexando o seu território ao da Colônia Itajahi (Brusque).9

 

Portanto, como ficou evidenciado por registros históricos fidedignos, a via pública atualmente denominada rua São Pedro e também conhecida como Peterstrasse, em Brusque, foi uma  homenagem a D. Pedro II.

 

1 - CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Brusque, Subsídios para a História de uma Colônia nos Tempos do Império. Brusque: Sociedade Amigos de Brusque, 1958. pp. 7-8-66-67.

2 - Ibidem, pp. 57-67-93-144.

3 - GEVAERD, Ayres. Diretores, Câmara de Vereadores (Império), Superintendentes e Prefeitos de Brusque. In: Notícias de Vicente Só, IV, n.17, jan.-fev.-mar.-, Brusque, Sociedade Amigos de Brusque, 1981.

4 - GEVAERD, Ayres. Clube de Caça e Tiro Araújo Brusque - Schützen-Verein "Brusque": memórias. Brusque: Editora e Gráfica Odorizzi Ltda., 2006. p. 28.

5 - CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Brusque, Subsídios para a História de uma Colônia nos Tempos do Império. Brusque: Sociedade Amigos de Brusque, 1958. p. 110.

6 - Ibidem, p. 70.

7 - Holsácia é um exônimo para o antigo principado alemão Holstein, que forma, atualmente, com o sul de Schleswig, do qual é separado pelo rio Eider, o estado de Schleswig-Holstein. Ao citar "Holsassos", o diretor da colônia quis se referir às várias famílias de imigrantes alemães oriundos de Holstein (Holsácia, em português), todos protestantes (luteranos), que chegaram a Brusque no ano de 1861.

8 - RELATÓRIO do Diretor da Colônia (Barão de Schneeburg) sobre o ano de 1862. In: Notícias de Vicente Só, III, n.12, out.-nov.-dez., Brusque, Sociedade Amigos de Brusque, 1979.

9 - CABRAL, Oswaldo Rodrigues. Brusque, Subsídios para a História de uma Colônia nos Tempos do Império. Brusque: Sociedade Amigos de Brusque, 1958. pp.115-137.